Existe uma pergunta que me fazem com frequência: por que uma fotógrafa faz cerâmica? A resposta curta é que não consigo separar as duas coisas. A resposta longa é este post.
O ateliê fica em Brasília, num espaço que divide luz com a câmera, com as obras da Série Fio e com o silêncio necessário para qualquer trabalho que exige presença. A cerâmica chegou como uma extensão natural da fotografia — não como hobby, não como distração, mas como outra linguagem para dizer o que as imagens às vezes não alcançam.
O que é cerâmica artesanal — e o que não é
Cerâmica artesanal não é apenas um objeto feito à mão. É um processo que começa muito antes da argila e termina muito depois do forno. Começa na escolha do barro — cada tipo tem uma memória diferente, uma resistência diferente, uma forma de responder ao toque. Termina quando a peça encontra quem vai usá-la, e essa relação começa.
O que diferencia a cerâmica artesanal da industrial não é só a técnica — é a presença de quem faz. Cada marca de dedo, cada assimetria, cada variação de esmalte conta algo sobre o momento em que a peça foi criada. Isso não é imperfeição. É autoria.
Em Brasília, a cena de cerâmica artesanal tem crescido nos últimos anos — ateliês, cursos, feiras de design autoral. Mas ainda existe uma confusão entre cerâmica decorativa e cerâmica como expressão artística. A diferença está na intenção: uma peça decorativa existe para ser vista; uma peça autoral existe para ser sentida.
O processo no ateliê
Trabalho principalmente com torno e com técnicas de construção manual — rolagem, placas, pinçamento. Cada método produz um resultado diferente, e a escolha da técnica já é parte da linguagem da peça.
No torno, o barro responde à velocidade e à pressão das mãos de uma forma que nunca é completamente previsível. Você aprende a negociar com o material — não a dominá-lo. Essa negociação é o que torna cada peça única, mesmo quando a intenção é criar uma série.
A queima é onde a peça se torna ela mesma. O forno transforma — às vezes de formas que você não esperava. Aprendi a receber esses resultados como informação, não como erro. O barro tem uma sabedoria que o controle humano não consegue replicar.
A relação entre cerâmica e fotografia
Fotografar e fazer cerâmica compartilham uma mesma exigência: presença. Não é possível fazer uma boa foto pensando em outra coisa. Não é possível centrar uma peça no torno com a mente dispersa. As duas práticas me ensinaram a mesma coisa — que qualidade de atenção é qualidade de resultado.
Mas existe uma diferença fundamental. A fotografia captura um instante — ela é, por natureza, sobre o tempo que passou. A cerâmica cria um objeto que vai existir no tempo — ela é, por natureza, sobre o tempo que vem. Trabalhar com as duas é uma forma de habitar o presente de maneira mais completa.
A Série Fio nasceu dessa intersecção. As obras usam fio de cobre e argila para explorar a tensão entre o rígido e o maleável, entre o que sustenta e o que cede. A fotografia documentou o processo; a cerâmica é o processo.
O que você pode encontrar no ateliê
As peças do ateliê não seguem uma linha de produção. Cada série nasce de uma pergunta — sobre forma, sobre textura, sobre o que um objeto pode comunicar além da sua função. Algumas peças são funcionais (tigelas, vasos, canecas); outras são escultóricas, existindo apenas como presença.
Trabalho com encomendas para quem quer uma peça específica — com dimensões, cores e intenção definidas em conversa. E trabalho com séries abertas, onde a peça já existe e encontra quem é seu.
Se você está em Brasília e quer conhecer o ateliê, ou se quer conversar sobre uma encomenda — estou aqui. A cerâmica, como a fotografia, começa sempre com uma conversa.
"O barro não mente. Ele mostra exatamente o quanto de presença você trouxe para o trabalho."
